PURIM" Duas semanas depois de prepararem o vinho chegou o feriado de Purim. Não vestiram fatos especiais, como hoje os judeus fazem, mas contaram a história da Rainha Ester, com quem tanto se identificavam. Tal como eles, Ester escondera ser judia. Havia até quem lhe chamasse santa Ester. Para eles o Purim era tão importante como o Yom Kipur. Ester jejuara durante três dias antes de pedir ao Rei Assuero que salvasse os seus irmãos e irmãs judeus do terrível Hamã, que os perseguia. Os marranos observavam o jejum de Ester e tentavam jejuar em sua homenagem. Algumas mulheres até jejuavam durante três dias ou mais em honra de Ester. Aqueles que não faziam jejum comiam naquele feriado a pastelaria tradicional marrana, que consistia em croissants de nozes e roskas de alhesho, a versão espanhola de homentasch. Há uma oração que todos os marranos sabem de cor e que recitam quando fazem jejum: “... Recordai-vos, Senhor, e dai-Vos a conhecer em tempo de necessidade. Enchei o meu coração com a divina coragem, Senhor de todas as nações, senhor de toda a bravura. Permiti que fale orgulhosamente com o leão e encha o seu coração de ódio pelos nossos inimigos... e àqueles que nos desejam mal, e redimi-nos com a Vossa poderosa mão, e salvai-me da minha desgraça pois não tenho quem me ajude senão Vós... Abomino a cama dos incircuncisos e dos estrangeiros... Abomino o signo da minha posição elevada, a coroa que sou forçado a usar em público, abomino-a como um pano menstrual e retiro-a na minha solidão... O vosso escravo não regozija desde o dia da minha chegada aqui e até este mesmo dia, sois Vós a minha única alegria, Oh Senhor, Deus de Abraão, o poderoso Deus, o Supremo Senhor, ouvi a voz dos perdidos e salvai-nos da mão dos malfeitores e libertai-me dos meus medos.” Os marranos precisavam de observar os feriados judaicos mas também tinham de parecer cristãos dedicados. Todos os domingos tinham de ser vistos na igreja e de conversar com o maior número de pessoas que conseguissem antes e depois de rezarem para todos os encarassem como cristãos devotos. Um dos mais usuais costumes da Igreja Católica era o da confissão – todas as semanas as pessoas confessavam os seus pecados ao padre e recebiam um castigo ou a absolvição. Os marranos tentavam evitar a confissão. Receavam que esta conversa pessoal os levasse a cometer erros e a revelar informação proibida, mas mesmo assim tinham de confessar-se de tempos a tempos, de modo que os cristãos não suspeitassem. Por isso inventavam pecados e preparavam respostas para qualquer pergunta que os padres pudessem fazer, de maneira a não se denunciarem. Uma parte importante do estilo de vida dos marranos estava relacionada com o jejum e com a recusa de certos tipos de comida. Os cristãos eram ensinados a sentir culpa e remorsos e por isso havia 215 dias especiais de jejum em cada ano. Nalguns destes dias não comiam coisa alguma, enquanto que noutros tinham apenas de se abster de comer carne. A carne tinha sido proscrita como alimento prazeroso e graças ao castigo que Deus dera a Adão e Eva: “E comereis as ervas dos campos” em virtude do “pecado original,” como chamavam os cristãos à transgressão de terem ingerido o fruto da árvore do conhecimento. Era frequente terem três dias de jejum todas as semanas: a quarta-feira, que era o dia no qual, de acordo com as suas crenças, Judas Iscariote recebera o pagamento por trair Jesus; a sexta-feira, que era o dia da crucificação de Jesus, e o sábado, que era o dia de Maria, a mãe de Jesus. Um dos mais importantes períodos de jejum era a Quaresma, observada durante os quarenta dias que precediam a Páscoa. De acordo com a história cristã, Jesus recolheu-se no deserto durante quarenta dias, o que explica o jejum porque ele não comeu durante esse período de tempo e foi crucificado na Páscoa. Não é, obviamente, possível fazer jejum ao longo de quarenta dias, pelo que se comia apenas uma refeição frugal à noite. Algumas pessoas permitiam-se fazer outras duas refeições ligeiras durante o dia. A abstinência de carne era observada, mas o peixe e a fruta eram permitidos. Antes de o período de jejum começar era necessário consumir todos os alimentos frescos que houvesse em casa, incluindo o vinho, porque bebê-lo era proibido durante a Quaresma. Foi assim que nasceu e ao longo de centenas de anos se desenvolveu a tradição do carnaval. A própria palavra carnaval deriva da expressão latina carne vale, que significa “adeus à carne”. Os marranos tinham de preparar-se para a Páscoa judaica e ao mesmo tempo tinham de aderir às proibições dos cristãos, portanto não havia aromas a carne assada que emergissem das janelas das suas casas, nem das chaminés das suas cozinhas. Tinham de participar nas celebrações do carnaval que decorriam pelas ruas das cidades e de beber o seu quinhão de vinho e ainda tinham que mandar as criadas comprar apenas fruta e peixe nos mercados de maneira a não levantarem suspeitas. E ao mesmo tempo tinham de preparar-se para a Páscoa. "